Somos cebolas e esta metáfora ja está gasta. Mas a espessura e a multiplicação das cascas que nos acacham, assustam. Quantas vezes nos irritamos ou apatizamos sem conseguirmos perceber porque? Quantas vezes nos apaixonamos fervorosamente por coisas ou pessoas que não passam de coisas, sem sequer as conhecermos bem? Nasce um ardor cá dentro, uma procura sedenta cuja intensidade não faz sentido mesmo dentro da irracionalidade do desejo. Não somos nós próprios. Somos os nossos sucessos, as nossas conquistas. E é por esses indíces que nos guiamos. Mas um dia teremos de ser. Esse dia chega sempre. Quantas pessoas também se querem despir no meio de uma estação de comboios e irem gritar a sua nudez para cima de um monte sem vida? Quantas pessoas estão desesperadas por serem?

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