A dada altura das nossas vidas começamos a pensar. Um pensar pensante e mais pesado do que o de uma criança que brinca com os amigos ou de um adolescente que namora com paixão. E esse mesmo pensar assustou-me de morte. Não a ideia de o fazer. Mas sim as conclusões a que fui chegando.
Não somos felizes, ninguém ou poucos os são. Somos armazéns de lixo como escrevi antes. Tenho a certeza disto e também tenho a certeza que esse mesmo lixo só faz parte da minha retina, dos meus sentidos que o traduzem. No fundo não é uma tradução porque na Verdade não há absolutismo e então tudo são interpretações e uma interpretação é uma criação a partir de algo que existe. Mas esta existência é tudo menos inequívoca. Tem milhares de formas (até a palavra forma me parece abusiva), e eu como espectador, com as ferramentas que fui aprendendo ao longo da vida escolho as que posso (porque o querer não é aqui aplicável) e sigo-as. Quase como uma questão de fé. E isto não é assustador, pelo contrário, liberta-nos de todos os julgamentos e preconceitos, não esquecendo que conseguir faz-lo é uma das tarefas mais difíceis da vida. E vem a conversa que já se ouviu: desde bebés que nos formatam, levamos com pais, professores, padres, media, amigos que também eles enganados nos arrastam neste tsunami de ilusões e de corridas a estatutos e imagens que não passam de reflexos egóicos onde nos levam a viver como se tudo à nossa volta fosse um espelho e nesse espelho temos de ver dinheiro, temos de ver sucesso, temos de casar, temos de ter muitos amigos, temos, temos e temos. Os outros vão ver que não somos nem fizemos, os outros vão dizer mal de ti, os outros são melhores que tu. A verdade é que não há espelho nenhum. Isso seria de um narcisismo doentio. Seria não. É, ele existe realmente. Ninguém está assim tão interessado no carro que tens mas sim no carro que eles não têm. Falam do teu casamento desfeito porque é uma forma de se gabarem da familia perfeita que aparentam ter. Estamos sedentos de realização e isso leva-nos a estes desesperos.
O consumismo também nos apazigua. Podermos comprar transmite uma sensação agradável disso mesmo. Poder. Mas é sobre algo exterior a nós. E quando o fazemos, quase sempre estamos a ser muito fracos noutro campo, no que realmente importa, nós próprios. Não temos qualquer tipo de poder sobre a nossa vontade. Eu também me deixo levar pela facilidade do consumismo mas tenho noção que quando o faço não estou a ir no caminho da minha evolução, estou a fugir dele, a entupir as veias da lucidez. Seja com comida ou alcool, carros e roupa, ou até mesmo com relações.
Comprometo-me a limpar os meus sentidos de tudo o que me foi e é e continuará a ser imposto. Não me deixar levar por instintos primários ou por complexas regras sociais que tentam anular o espírito dominando a mente. Focar-me no agora e reconhece-lo como um renascimento, não só de mim mas de tudo o que sinto(interpreto). Carrego um passado e só eu sou responsável por usa-lo da melhor forma. Anseio um futuro que sou eu que o imagino, tendo especial cuidado com o sedutor campo da imaginação, onde a probabilidade de falhar não existe e só não existe porque nada existe. Uma vida feita de nada é um desperdício de recursos. E estou a ser dura comigo, porque tendo a procrastinar.
Sem conclusão á vista, chega-me a frase 'encaixar sem esforço numa sociedade doente não é sinonimo de sanidade' para me descansar quanto à minha falta de tranquilidade. Isto está tudo virado do avesso, mas ainda bem que comecei a pensar, pode ser que um dia não precise de o fazer mais.